O homem está encostado à parede e olha em frente . A mulher chegou e perguntou-lhe : para onde estás a olhar ? O homem respondeu : estou a olhar para ontem e deixou cair o saco com o telemóvel . A mulher disse logo : espera, eu apanho , podes continuar a olhar . O homem voltou-se, ficou de costas e disse : ontem estava aqui a esta hora e não me lembro de nada . Minto , lembro-me daquela rapariga que ali vai , dando trela ao cão . Ontem o dia foi tão longo, contei trinta e sete pessoas nas três ruas por onde passei .Não me lembro de como cheguei aqui.
Isso não é nada, eu contei quarenta e cinco nas mesmas três ruas. Não me enganei e cheguei aqui, estavas tu a olhar para o mesmo sítio. Para onde olhas ? quis saber . O homem calou-se. A mulher insistiu , ele respondeu : para ontem ? A mulher pôs-se ao lado dele e perguntou-lhe , mas para onde estás a olhar , não é muito longe , olhado daqui ? Não, visto daqui é a mesma distância do que olhado de lá para aqui . A mulher riu-se achou estúpido, e só respondeu , se lá estiveres . O homem acrescentou imediatamente : ou se para lá fores . Eu continuo aqui a olhar para ontem que é longe e dói-me nas pernas essa distância . A mulher disse , eu não olho nessa direcção , olho em frente e dói-me nos olhos como se alguém andasse a cegar –me . O telefone tocou. A mulher deu-o ao homem . Está frio , disse o homem , mas ficou a ouvir muito longe um ruído e comentou: já ontem ouvi isso , mas não sei, se foi há muito tempo . Lembras-te ? Como me posso lembrar , se tu vinhas a contar gente e a distribui-la por casas abandonadas. E, eu vinha noutra rua a contar pessoas que caminhavam tão cegas como eu que as contava . Adormeci de pé sem que ninguém visse .
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