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Domingo, 1 de Janeiro de 2012

No rasto da tristeza

Mal entrei
vi
a mulher passeava os olhos
nas paredes cheias do café
duas lágrimas de vinho no copo branco
uma maçã mordida ao lado do jogo de xadrez

Entrou-me aqui - disse a dona do café-
só adivinho misérias

Voltei a olhar
vi
a mulher tinha uma medalha no fio
nas mãos dois anéis de coração
um de vidro outro de ouro
olhava o fim da tarde na serpentina
da televisão


Um ruído sobressaltado e decifrado pela dona do café
-não tenho visto nada em condições
só adivinho misérias_


A mulher dizia isto
naquele tempo os campos só davam estradas
as estrelas morriam no calor das noites
havia um coração peregrino que era o meu
não sofria caminhos nem dava morte
anoitecia tanto
eu ainda não estava aqui

Levantou -se e veio ao meu encontro
disse -me
vou contar-lhe um segredo
cheguei pela margem aqui
estendeu-me as mãos frias
fechou os olhos
no contentamento de calor humano
eu não incomodo ninguém

3 comentários:

Lídia Borges disse...

Um belíssimo poema a iniciar este 2012.
Realço:

"A mulher dizia isto
naquele tempo os campos só davam estradas
as estrelas morriam no calor das noites
havia um coração peregrino que era o meu
não sofria caminhos nem dava morte
anoitecia tanto
eu ainda não estava aqui"

Saudações poéticas

L.B.

Amélia disse...

Muito bom.Posso divulgar?

Licínia Quitério disse...

Que maravilha, Zé. Uma imensa ternura a embrulhar toda a tristeza.