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Segunda-feira, 21 de Novembro de 2011

No rasto da tristeza

À hora magra da manhã
Cresce a falta na esplanada
Vem a empregada sem fala
Cobrar silêncio surdo
Anotar pedido a esmo
Colher sussurro do mundo

Ponho os olhos no longe
O Tejo torna-se um barco
Pedinte extravagante e raro
Que hei-de olhar
À hora gratuita do vento
Se árvore morre
O mundo consente
Se a demora da empregada
Perdida nos pedidos
Por entre gente e mesas
È mundo distante preso

Lembro Cesário por nada
Caminho com os olhos
Passa gente na rua
Ouço o plástico no peso
Da pressa num elástico
Na claridade baça onde
O frio na conversa se estende
E com pressa passa

A rua é tão grande
Chega a temer-se percorrê-la
Levá-la com os olhos
Encontrar-lhe direcção
Surpresa fito de sol uno
O outono passa de sombras
Longas por entre gente
Que hei-de olhar no mundo

A hora continua de invasão
A esplanada ganha centro
As mesas de ferro pintado
Azuis como as cadeiras rugem
Chegam casais que trazem
A corrente das horas
O postiço do descanso
Com crianças pasmadas
No descaso com os pais

Sentam-se com cortesia rude
Sujos como tempo
Distribuem pertences caros
Com limpeza de modos
Indiferentes à empregada
Perdida entre pedidos

Eu navego com os olhos
O Tejo um barco pedinte
Estranho corre águas
Há uma tristeza firme
Que se esvai no sorvo do café
Nas pontas dos cigarros

Ah se houvesse ali o sol
Ali o pássaro ali a árvore
Que vejo e sinto no canto
Se houvesses tu contra o vento
Que esbanja as coisas e as pune
No verde da maçã do desenho da criança

O mundo arranca-o aquela mulher
Do cabelo a elástico e selo
Com a brevidade de modos
A mesa é o mundo num saco
È do homem o jornal lido
O gráfico económico
O osso desportivo
O empregado perdido por entre mesas
Anota pedidos no papel
E eu sem rumo tomo o destino às subtilezas

1 comentários:

as-nunes disse...

Passei por aqui
vinha com tristeza
no meu olhar e sentir
acabado de ler
e transcrever
outra tristeza
do João Negreiros
que fiquei agora a
conhecer - fiquei?!

Tanto como se pode
conhecer qualquer
poeta
ler e reler
a sua poesia
sente-se o seu toque
fica-se a ouvir
uns sinais que se
esfumam
ou desvanecem
mas ficam
e não os vemos

Acabei de tirar umas fotos
ao final da tarde
um final tristonho
enfadonho
pareceu-me também
medonho

Será medo?
Ansiedade?

Que tempo!...


com um abraço do antónio