Barra de Vídeo

Loading...

Sábado, 24 de Setembro de 2011

LUTOS

I

A minha mãe era triste
Tinha olhos de acender luzes
na escuridão da morte
e era triste

Inscrevia as horas nas paredes
com o tamanho dos seus olhos
Eles cresciam nos meus
eram os dela e os meus
e eram tristes


Havia sempre um luto corrido nos dias
Era uma pequena cor no casaco
a chorar de escuridão em mim
e o mundo à volta era triste

Uma pertença longínqua
trazia-me unido à morte
sem que eu rodeasse muito os vivos
A casa tinha eternidade
era triste

II

Os meus irmãos habitavam o longe
Eu olhava a minha mãe
quando ela vinha do quarto dos mortos
Ela descontava silenciosamente
o riso de medo que nos sustinha
O mundo era magoado
A minha mãe era triste

Eu tinha as marcas de luto que me uniam à morte
num jogo áspero de soluço escasso
Os meus irmãos resguardavam – se dos retratos
festejavam os dias num jogo disputado
Eram tristes

Contava eu os velhos como surpresas junto de velas
nas nossas tão veladas brincadeiras
a que a mãe vinha assistir com cuidados
nos olhos enormes de lembranças
idades lutos e exangues pertenças
A vida tinha a morte
Era triste

5 comentários:

deep disse...

Triste, mas muito bonito, Zé. Um abraço apertado.

Amélia disse...

Gostei muito, amigo!

Miabar disse...

Muito triste. É.
Mas sem artifícios. Como sempre.
Também gostei, Amigo.

fernanda s. monteiro disse...

A vida, na sua essência, é triste e é assim mesmo, amigo! Quanta tristeza nos risos de hoje, lembranças de tristezas do passado...
Gostei muito de ler. Um abraço!

clorinda disse...

):