I
A minha mãe era triste
Tinha olhos de acender luzes
na escuridão da morte
e era triste
Inscrevia as horas nas paredes
com o tamanho dos seus olhos
Eles cresciam nos meus
eram os dela e os meus
e eram tristes
Havia sempre um luto corrido nos dias
Era uma pequena cor no casaco
a chorar de escuridão em mim
e o mundo à volta era triste
Uma pertença longínqua
trazia-me unido à morte
sem que eu rodeasse muito os vivos
A casa tinha eternidade
era triste
II
Os meus irmãos habitavam o longe
Eu olhava a minha mãe
quando ela vinha do quarto dos mortos
Ela descontava silenciosamente
o riso de medo que nos sustinha
O mundo era magoado
A minha mãe era triste
Eu tinha as marcas de luto que me uniam à morte
num jogo áspero de soluço escasso
Os meus irmãos resguardavam – se dos retratos
festejavam os dias num jogo disputado
Eram tristes
Contava eu os velhos como surpresas junto de velas
nas nossas tão veladas brincadeiras
a que a mãe vinha assistir com cuidados
nos olhos enormes de lembranças
idades lutos e exangues pertenças
A vida tinha a morte
Era triste
5 comentários:
Triste, mas muito bonito, Zé. Um abraço apertado.
Gostei muito, amigo!
Muito triste. É.
Mas sem artifícios. Como sempre.
Também gostei, Amigo.
A vida, na sua essência, é triste e é assim mesmo, amigo! Quanta tristeza nos risos de hoje, lembranças de tristezas do passado...
Gostei muito de ler. Um abraço!
):
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