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Sexta-feira, 27 de Agosto de 2010

Anna Netrebko - Dvorak - Song To The Moon

O MIO BABBINO CARO

Anna Netrebko - Opernball 2007

Proms - Anna Netrebko - Meine Lippen sie Kussen so heiss

Lonely by the Shore

Horowitz - Mozart Sonata in C Major K. 330; 3rd Movement

Mozart Piano Sonata in A Major (K331); Menuetto

(1'mov) Maria Joao Pires Mozart K332

Franz Schubert - Impromptu d899, No. 1, Wilhelm Kempff

Debussy, Clair de lune (piano music)

Wilhelm Kempff plays Beethoven's Sonata 27, Op 90, mvt. 1

Wilhelm Kempff plays Beethoven's Moonlight Sonata mvt. 1

Sábado, 21 de Agosto de 2010

NA BRISA PASSAGEIRA

Levava blusa de seda verde,
Levava

Uma água de mão para a sede,
Sustinha

Um par de espelhos ao peito,
Dançava

Djines em fiapos nos joelhos,
Ela tinha

ai ia , ia e andava


No aperto do calor do Verão,
Ela vinha

Nuns passos fugindo,
Voava

Tão bela na tarde
Passava

Tão próxima dos olhos,
Ficava

ai ia , ia e andava


Uns brincos duas sementes,
Diziam

E dois bagos de romã,

Luziam


ai sumidos e reluzentes,
nas orelhas desenhadas,

Ela tinha


A boca de tanto silêncio,

Mordia

O mundo de tanta levada,
Parava

O vento fresco tocava
E só ela passava



ai ondas do cabelo rente,
ai dos pentes as vagas tão
ondeladas,


Nas sapatilhas de andarilha,
Voava

A rigor uma de cada cor, voavam,
ai ia , andava ria e passava

Uma pulseiras de linho no tornozelo,

Vibrava

na cor loura da penugem do pêlo

ai ia , ia eu andava


Um brilho naquela pele bronzeada,
Andava
E ela por fugídia se achava.

Num corpo de vento se ia
Um corpo de sonho passava.

Sexta-feira, 6 de Agosto de 2010

A rapariga , a avó , a mãe e o homem

A rapariga tinha chegado a casa e ainda tolhida de dores explicou-se; tinha erguido sozinha uma enorme caixa, na loja de tecidos, não sabia como, mas tinha acontecido, tinha caído sobre ela desmaiada, e os sentidos só os recuperou a bofetada ligeira e a mãos de água fria .
Acordou ardendo, tinha sentido o corpo por dentro todo num fogo ateado de sangue .
A mãe olhou-a discretamente, escutou-lhe as palavras sem interesse e mergulhou na ensismamento da quase noite ,o pai ainda estava lá fora refugiado num silêncio áspero ,apenas de vez em quando desferia umas palavras de incentivo aos cães de caça que se não aventuravam às vinhas .
A rapariga continuava a falar, tinha andado dois quilómetros, tinha vindo mais cedo , tinha feito muito esforço , estava cansada , mas ninguém deu por essas horas não habituais. Só a avó ouvira um carro ao longe e pusera-se à escuta, não era comum aquele buzinar longínquo ou aquele alarido dos cães da vizinhança.
À hora do jantar, a rapariga comeu pouco, tinha dores, e contorcia-se ligeiramente na cadeira, mas , só a avó a olhava , compadecida, com interesse pelo que tinha ouvido `, e combatia-se de curiosidade , querendo irromper de palavras altas na quietude a noite , afastando, porém, o pior que lhe acudia ao pensamento , o suficiente para causar um mal-estar no silêncio em que todos viviam, e agora todos comprometia . De repente, a rapariga voltou a desmaiar, deslizando ligeiramente na cadeira . O pai afastou-se da mesa, a mãe também, só a avó lhe deitou as mãos, foi a primeira a querer recompô-la, a insistir na recuperação dos sentidos . A rapariga não dava acordo de si.No entanto, não houve aflição, apenas o barulho do esforço da avó e da mãe que se lhe juntara , e delas algumas palavras, mais de censura do que inquietação, o pai a ver. A rapariga era magra , muito alta , abria os olhos rodeando as coisas e pessoas à volta , depois fechava-os , demorava a encontrar assento firme na cadeira . A mãe e a avó puseram-na de pé, amparam-na .
Os cães ladraram lá fora, ouviu-se de novo um carro ao longe, e a rapariga voltou a si, mas já na cama, no seu quarto, para onde foi levada a custo. Gemia, gemia desesperada, como se estivesse a pedir socorro deitou os olhos verdes na velha e enorme boneca sentada na cadeira ao fundo do quarto, e aí permaneceu ligada ao plástico, muito branco. A boneca estava esventrada, de pernas muito abertas, o cabelo ruivo despenteado , os olhos verdes como os dela, muito abertos faiscavam no quarto, só com uma luz intermédia, baça . Os olhos eram ainda uma velha âncora para aquela intermitência de soluço afogada de dor. A mãe estava a porta do quarto, a avó atrás, observando atenta, a rapariga destapou-se e deixou ver os lençóis ensanguentados. A mãe afastou a avó daquela visão, quis voltar as costas, fechar a porta. E assim o fez.
A avó pela primeira vez tinha dito que era preciso chamar o médico, a mãe calada tinha os olhos fixos no pai que olhava atentamente o fio misterioso de sangue no soalho da sala. O homem fechava e abria os olhos, tentando reter a galeria de retratos expostos na parede.
Médico? – Interrogou o pai, só se saíres tu daqui!
Ele tinha ouvido a respiração opressa da mulher, a aflição da mãe.
-Eu mato a malvada! Há-de morrer a malvada – dizia desorientado gesticulando entre a rua os cães e a casa .
A mãe via naquela ameaça um mau augúrio, mas ficou tranquila por uns segundos. O homem expedito ligou o rádio, pós-se de ouvido colado ao ruído; cá fora os cães de caça muito perto, a escuridão em redor, um enorme clarão dos postes de electricidade só ao longe! A luz ali, bem podia estar apagada, ainda murmurou.
A avó confiante no homem, disse-lhe:
-Deixa-te estar aí, entretém-te…
Puxou pela nora, e dispôs-se a andar, a sair dali, a chamar o médico ou ambulância na quinta dos Pomares, lá ao longe , onde havia telefone .
_Era tarde, ainda demorariam, disse à nora.
O homem ficava para trás a falar com a morte a sufragar matanças, a mulher estava com a cabeça de lado , presa à partida com a sogra já à frente a caminho da quinta .
Uns passos adiante .
-Anda, mexe-te, disse a sogra.
Andaram depressa, a noite movia–se de silêncio , era Primavera de chuva, a espaços o chão muito molhado passava um frio de vidros aos pés. Alguns cães acompanhavam-nas, seguiam-nas a diante. Uma lanterna de mão guiava- as , a ausência de fala entre elas quase ensurdecia . Havia ligeiros ruídos do chão , bichos de chuva, inquietos , o cães ladravam ao longe , entre as mulheres imperava o silêncio.
Viam-se quase chegadas . Mas, ainda havia caminho a andar . A rapariga só. Havia também a dificuldade de bater à porta do caseiro da quinta , mal se conheciam , tinham de explicar –se .
Foi a avó que o fez , a mãe atrás , os cães presos envolvidos em latidos árduos com os cães minorcas que elas traziam de companhia. Uma desordem de alarido , ardendo na aflição da noite .
Um homem acendeu a luz de fora , o primeiro sinal de presença viva , e as mulheres ficaram cegas , especadas , só uma delas a explicar a ida! A avó.
Ficaram à espera, o homem tinha recolhido , era tarde , a ambulância não demoraria, estava cansado , assim se explicou e assim tinha fechado a porta .
O tempo a passar, a mãe sentia um calor no peito e no rosto , levou as mãos uma sobre a outra ao lenço, estava agora ansiosa , O pai e a filha em casa, sós .
Elas continuavam ali de portas fechadas, à espera. Era quase uma hora da manhã. Quando a ambulância parou, elas entraram, a mãe vergada no assento pôs as mãos no rosto e cobriu-o , avó explicou-se, e já sentada disse : agora ia assim de viagem até uma grande cidade , onde não conhecesse ninguém , vinha de lá manhã cedo, com um menino pela mão , tenho a certeza que toda gente me saudaria .

Quarta-feira, 4 de Agosto de 2010