eu quis dizer mundo,
e uma folha de papel sujo,
trouxe-me um soluço;
o papel fugia no ar e levava,
com ele pássaros voados ,
luzes foscas tremiam nas casas,
eu estava mudo
num brilho do sol refractado
eu quis dizer mundo,
as árvores caiam,
as pessoas anoiteciam ,e
sós no silêncio se viam,
quando quis dizer mundo
soletrei, escrevi mundo
no mar, na terra,
nestes lugares
só vi peixes adormecer,
insectos aflitos derreter
quando as flores anoiteceram,
sob o sol que não havia,
eu disse mundo
eu queria só dizer mundo ,
mas eterna cidade era suja ,
o automóvel era voado;
gente cómoda ,
a nódoa de pele,
o olhar minguado
eu quis dizer mundo,
e a minha voz só podia ,
dizer imundo ,
sei que estou mudo,
meus os olhos no vento têm tudo
Domingo, 28 de Junho de 2009
Quinta-feira, 25 de Junho de 2009
Segunda-feira, 22 de Junho de 2009
As palavras de Gabriela Rocha Martins
"Escrever já é um tipo de máscara que se usa para enxergar o mundo", escreveu um dia Nietzsche.
Não sei que lúcida e desconcertante aventura ou qual o fascínio que encontro na leitura de poemas e de contos.
Confesso que não sei.
Confesso que ao prender-me ao imaginário dos autores, corro o risco de confundir o meu próprio imaginário.
Mas sei que ouso projectar-me numa travessia voluntária e obrigatória, numa espécie de passagem entre o conhecido e o desconhecido, entre o grito e o silêncio.
É, então, que percebo quão humana sou, senhora do riso e da tristeza, da comédia e da tragédia...
... Coisas estranhas acontecem ...
Tão estranhas que, a partir de 2003, me vi envolvida num projecto lindíssimo, com pessoas e obras lindas – o Prémio Littetarius, Racal Clube.
E se os Concorrentes, no seu todo e desde o primeiro ano, mereceram a gratidão da equipa que viabilizou o projecto, um especial destaque, ao vencedor de 2007
José Ribeiro Marto e o seu poema “Pastoreio”, a quem o júri, sem qualquer hesitação, deu o primeiro prémio.
Bem hajas, Zé, pelo teu lirismo, pelo teu belíssimo cantar transformado em poema maior.
E à laia de provocação, deixa.me questionar.te - Que seremos, nós, no futuro?
Não sei, mas sei que a paixão não acabou, porque continuamos a acreditar no sonho.
Sei que somos utópicos.
Mas, precisamente, por isso, somos, com todos os que ousam acompanhar-nos,
um caso muito sério de vadiagem.
( acaso seremos nós
humanos porque sonhamos
ou loucos porque prevalecemos no sonho? )
Um beijo ,Zé .forte ,sentido e muito cúmplice.
gabriela rocha martins.
presidente da direcção do Prémio Litterarius, Racal Clube.
Não sei que lúcida e desconcertante aventura ou qual o fascínio que encontro na leitura de poemas e de contos.
Confesso que não sei.
Confesso que ao prender-me ao imaginário dos autores, corro o risco de confundir o meu próprio imaginário.
Mas sei que ouso projectar-me numa travessia voluntária e obrigatória, numa espécie de passagem entre o conhecido e o desconhecido, entre o grito e o silêncio.
É, então, que percebo quão humana sou, senhora do riso e da tristeza, da comédia e da tragédia...
... Coisas estranhas acontecem ...
Tão estranhas que, a partir de 2003, me vi envolvida num projecto lindíssimo, com pessoas e obras lindas – o Prémio Littetarius, Racal Clube.
E se os Concorrentes, no seu todo e desde o primeiro ano, mereceram a gratidão da equipa que viabilizou o projecto, um especial destaque, ao vencedor de 2007
José Ribeiro Marto e o seu poema “Pastoreio”, a quem o júri, sem qualquer hesitação, deu o primeiro prémio.
Bem hajas, Zé, pelo teu lirismo, pelo teu belíssimo cantar transformado em poema maior.
E à laia de provocação, deixa.me questionar.te - Que seremos, nós, no futuro?
Não sei, mas sei que a paixão não acabou, porque continuamos a acreditar no sonho.
Sei que somos utópicos.
Mas, precisamente, por isso, somos, com todos os que ousam acompanhar-nos,
um caso muito sério de vadiagem.
( acaso seremos nós
humanos porque sonhamos
ou loucos porque prevalecemos no sonho? )
Um beijo ,Zé .forte ,sentido e muito cúmplice.
gabriela rocha martins.
presidente da direcção do Prémio Litterarius, Racal Clube.
Domingo, 21 de Junho de 2009
Sexta-feira, 19 de Junho de 2009
Segunda-feira, 15 de Junho de 2009
Circunstância( 2)
Às vezes no vaivém de uma artéria,
a memória súbita emerge de um sopro ,
o sangue funda a voz numa só palavra,
talvez o osso , a costela , os olhos trazem
_ avó
ela chega numa semente ,um sussuro implode,
a avó vem grácil , fantasiosa e crua
perdida no meu tempo , na minha travessia indirecta,
vem num sorriso aberto contra a escuridão dos dias,
dos seus dias de dealbar tempo ,
ou zurzir no tempo alegrias levadas ,
nú o coração rápido bombeia a artéria,
eu entristeço de saudade muito lentamente ,
lembro-me do susto que ela me punha nas mãos
para me soletrar a morte
a memória súbita emerge de um sopro ,
o sangue funda a voz numa só palavra,
talvez o osso , a costela , os olhos trazem
_ avó
ela chega numa semente ,um sussuro implode,
a avó vem grácil , fantasiosa e crua
perdida no meu tempo , na minha travessia indirecta,
vem num sorriso aberto contra a escuridão dos dias,
dos seus dias de dealbar tempo ,
ou zurzir no tempo alegrias levadas ,
nú o coração rápido bombeia a artéria,
eu entristeço de saudade muito lentamente ,
lembro-me do susto que ela me punha nas mãos
para me soletrar a morte
Sábado, 13 de Junho de 2009
Quinta-feira, 11 de Junho de 2009
Há(1)
há quando escrevo um ruído de autocarro lá fora,
a caneta ágil corre segura, quer o sopro na linha,
uma passagem vibrátil de solavanco rasga a noite,
acomodo-me na cadeira, não escrevo de pé ,não sou de altar
o desnível à passagem do autocarro levantou-se,
caiu sob o trovão de ferro,
não chove, tenho luz limpa na vidraça,
um vidro antigo como as minhas mãos no mundo,
ouço grade de passagem, empunhão levantado e caído,
mola elástica, um estofo busca sôfrego desterro
só eu ouço, tenho a noz de ouvido atenta,
há uma cidade que dorme a lentidão, o sulco dextro,
uma cidade acordada por um melro de asa vaga,
será noite funda de silêncio
vem gente a caminho de repartições e seguros ,
a vida sob riscos por ritmos de ordem vária ,
a quem tudo resta sob empréstimo
estou aqui, a caneta o meu socorro de horas
é noite , uma noite coroada de silêncio,
invadida por espectros diurnos, sei ,
gaze ou compulsiva demora nos olhos
traz quem passa , sorri á moléstia,
do tempo de quem vive esquecido,
estou incauto nas minhas horas ,
vivo a noite esquecido de uma estrela,
sem claridade pontuada no afago dos olhos ,
escrevo no silêncio , esculpo horas
a caneta ágil corre segura, quer o sopro na linha,
uma passagem vibrátil de solavanco rasga a noite,
acomodo-me na cadeira, não escrevo de pé ,não sou de altar
o desnível à passagem do autocarro levantou-se,
caiu sob o trovão de ferro,
não chove, tenho luz limpa na vidraça,
um vidro antigo como as minhas mãos no mundo,
ouço grade de passagem, empunhão levantado e caído,
mola elástica, um estofo busca sôfrego desterro
só eu ouço, tenho a noz de ouvido atenta,
há uma cidade que dorme a lentidão, o sulco dextro,
uma cidade acordada por um melro de asa vaga,
será noite funda de silêncio
vem gente a caminho de repartições e seguros ,
a vida sob riscos por ritmos de ordem vária ,
a quem tudo resta sob empréstimo
estou aqui, a caneta o meu socorro de horas
é noite , uma noite coroada de silêncio,
invadida por espectros diurnos, sei ,
gaze ou compulsiva demora nos olhos
traz quem passa , sorri á moléstia,
do tempo de quem vive esquecido,
estou incauto nas minhas horas ,
vivo a noite esquecido de uma estrela,
sem claridade pontuada no afago dos olhos ,
escrevo no silêncio , esculpo horas
Terça-feira, 9 de Junho de 2009
Sábado, 6 de Junho de 2009
Terça-feira, 2 de Junho de 2009
A TRISTEZA PÚBLICA
funda-se a tristeza num só dia, despoja-se da inutilidade das coisas áridas,
permanece um sopro de vento, uma lembrança inquieta, uma espera sobressaltada
no sabor de um café,
tudo se espelha aparente, mensurável, tudo padece da quietude severa de quem forjou o silêncio, tudo muito antes da nomeação do homem público
tudo se distribui, desirmana se esbate de improvável alegria,
um nome mais forte numa língua árdua dissolve-se, não aguarda,
tudo se arrima ao baralho insolente de prendas várias, irreconciliáveis de repente,
e eu que folgo o jeito desastrado que há nas coisas,
desbravo um caminho de água só com o frémito das palavras,
quero-as sem as ter alinhadas nos vales , nas enseadas,
por distracção chovem gotas de água nos olhos de fera presa,
mancham as peúgadas , irreconciliáveis às vezes,
cobrem de mar o infinito que decresce opaco,
num relógio mal preso ao susto de um pulso indefeso,
circula o sangue de que sou feito, e é-me estranho.
ando ,palmilho o distante , o secreto, a chama trémula,
o vento invariável e opresso na ausência,
vagueio pela vigília, sigo adiante,
porque não me sei nem mais perto nem mais longe;
o tempo irrompe da crisálida, a primavera e o seu sustento,
não há chave duradoura nas mãos, há o fundamento
inteiro , liso de não cobrir os dias com a velha malha,
o podre ardil que assalta as coisas inócuas e as releva,
não se sobressalta , não desafia não arrisca a cor aos dias,
distribui-se a ferramenta , o fosco olhar da aritmética,
o fundamento cruza as árvores, socorre-as do desbaste ;
ergue-as no linho dos pássaros, alimenta-as,
não é vão clamar por exílio deste mundo ,
que se apura na grosseria do homem público,
no desaire de reparação ao crescendo enfado,
de se ouvir tanques, explosões de guerras várias
negócios , fraudes , alinhamentos , cegueira que invade
lidando com a irrelevância de coisa pouca dos nossos dias.
permanece um sopro de vento, uma lembrança inquieta, uma espera sobressaltada
no sabor de um café,
tudo se espelha aparente, mensurável, tudo padece da quietude severa de quem forjou o silêncio, tudo muito antes da nomeação do homem público
tudo se distribui, desirmana se esbate de improvável alegria,
um nome mais forte numa língua árdua dissolve-se, não aguarda,
tudo se arrima ao baralho insolente de prendas várias, irreconciliáveis de repente,
e eu que folgo o jeito desastrado que há nas coisas,
desbravo um caminho de água só com o frémito das palavras,
quero-as sem as ter alinhadas nos vales , nas enseadas,
por distracção chovem gotas de água nos olhos de fera presa,
mancham as peúgadas , irreconciliáveis às vezes,
cobrem de mar o infinito que decresce opaco,
num relógio mal preso ao susto de um pulso indefeso,
circula o sangue de que sou feito, e é-me estranho.
ando ,palmilho o distante , o secreto, a chama trémula,
o vento invariável e opresso na ausência,
vagueio pela vigília, sigo adiante,
porque não me sei nem mais perto nem mais longe;
o tempo irrompe da crisálida, a primavera e o seu sustento,
não há chave duradoura nas mãos, há o fundamento
inteiro , liso de não cobrir os dias com a velha malha,
o podre ardil que assalta as coisas inócuas e as releva,
não se sobressalta , não desafia não arrisca a cor aos dias,
distribui-se a ferramenta , o fosco olhar da aritmética,
o fundamento cruza as árvores, socorre-as do desbaste ;
ergue-as no linho dos pássaros, alimenta-as,
não é vão clamar por exílio deste mundo ,
que se apura na grosseria do homem público,
no desaire de reparação ao crescendo enfado,
de se ouvir tanques, explosões de guerras várias
negócios , fraudes , alinhamentos , cegueira que invade
lidando com a irrelevância de coisa pouca dos nossos dias.
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